Olhos Azuis

Recentemente teve inicio uma campanha de desmoralização do Presidente Lula em virtude de uma declaração sua. Em virtude dessa mesma fala, considerada com gafe pelo Jornal Folha de São Paulo. Com isto em editorial o presidente foi chamado de racista e classificado como “chavista” pelo mesmo editorial.

Tal texto nos diz muito sobre as intenções em relação ao jogo político que já se apresenta antecipando o debate eleitoral do ano próximo, procurando desqualificar um dos principais cabos eleitorais na próxima eleição. E, não sem intenção, isso ocorre bem no momento que a candidata de Lula se apresenta já com 20% das intenções de voto. Podemos ver já uma das chaves do debate do ano que vem a forçada oposição entre Elite x Pobreza. Não sei se colocando Lula/Dilma como candidato dos pobres, populista e “chavista”  possa melhorar as chances de Serra, isso só veremos ano que vem, mas nesse momento serve para tentar distanciar a classe média brasileira da figura do presidente.

Essa classe média tem horror à identificação dos principais problemas brasileiros. Mais que isso, tem horror ao fato de caso se aponte responsáveis pelos problemas, aconteça o apontamento das responsabilidades que cada um possui. Por exemplo: é mais fácil fazer um debate maniqueísta entre “culpados e não culpados” do que descrever a forma como cada sujeito social vivencia o mesmo fenômeno da crise. O clássico é a ojeriza ao debate sobre as conseqüências da escravidão no Brasil. Porque isso decorreria em discutir posteriormente os direitos que cada um possui, principalmente os que possuem mobilidade social impedida em função da escravidão e os demais grupos sociais que tiveram mobilidade social geracional historicamente impedida.

Falar em reparação então, é um absurdo. Função social da terra, direitos trabalhistas tudo isso deve ser visto como “coisa do passado” segundo a mídia colonista, e entreguista que temos. Quando o ex-governador governador Claudio Lembo criticou a classe média branca e racista do estado de São Paulo os mesmos jornais silenciaram, não houve um questionamento sequer. Mas quando Lula aponta os países centrais do capitalismo como sendo os responsáveis pela crise, e aponta quais são os países, usando de uma característica da população dos mesmos (olhos azuis) mereceu editorial, cartas raivosas (provavelmente escolhidas a dedo) alem das matérias raivosas dos articulistas (colonistas como diz Paulo Henrique Amorin) reforçando a suposta veia racista de Lula.

O interessante no Brasil, principalmente nessa classe média é o esforço para qualificar qualquer um como racista caso ele venha a reconhecer que o Brasil é Racista. Ou, se você aponta que existe uma classe dominante, que possui seus braços na mídia, e é majoritariamente branca, reconhecendo assim os efeitos que o racismo tem sobre a composição das classes, automaticamente a você é qualificado como racista. Para a classe média é um absurdo reconhecer que a discriminação é histórica, pior: geracional.

Qualquer um que assuma-se como negro e reivindique o seu passado, reconheça a sua relação com a África é considerado racista porque segundo a lógica dessa classe média não existem mais “negros, brancos” existe só a suposta “miscigenação”  que apaga toda as diferenças e é sempre invocada para apagar qualquer forma de reconhecimento da desigualdade, e encobre a discriminação generalizada de nossa sociedade.

Assim fica fácil manipular e jogar essa classe média contra a imagem do presidente. Imagino que esse debate forçado entre elite e pobreza seja uma estratégia para afastar a classe média das porções mais pobres do Brasil. Numericamente importante essa classe média pode fazer diferença em virtude de um embate duro entre o candidato das elites (Serra) e a candidata das camadas populares (Dilma). Aposta-se portanto no histórico medo da classe média de um dia vir a ser parte dos setores populares e no preconceito contra as eventuais medidas progressistas, devido a seu egoísmo inerente que imagina que essas políticas são formas de priorizar a população em detrimento da classe média. Os grandes jornais e TVs abertas não se cansam de demonstrar como essa classe média é “injustiçada” em virtude dos “impostos excessivos que paga”. A classe média no Brasil se considera  a locomotiva da nação, sendo a de São Paulo a que mais incorpora esse estereótipo.

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