O Senso Comum e a Política I

A forma como se deram os fatos e a comunicação dos mesmos através da imprensa nos mostra a fragilidade do processo democrático no nosso país. A pretensa procura por demonstrar uma “verdade factual” procura transforma interpretações do ocorrido em “realidade” sem o devido esgotamento das fontes jornalísticas que fornecem, ora ou outra, os “furos” para esta imprensa. Todos, com poucas exceções admitem que o sujeito que acusa possui “a clareza” e a “justeza moral” (independente de seu passado ou de sua participação no fato que relata) para estar correto naquilo que informa.

A partir deste momento, tudo que a outra parte “aquela que é acusada” pode dizer será interpretada como necessariamente “mentira”. A firmeza com isto se apresenta para todos fica mais claro quando qualquer forma de interpretação discordante da “majoritária” é massacrada como se fosse uma forma “condescendência” para com os “culpados”.  Pode-se ser visto na forma com que a entrevista concedida pelo presidente a Carta Capital e também aquela entrevista concedida as Rádios e, antes desta, à TV Cultura. A obrigação de comunicar-se com a população é uma incumbência de qualquer um que ocupe a presidência da República, e é algo indiscutível. Contudo, a forma da comunicação, que não passa pelo modo “oficioso” da comunicação brasileira é com certeza mais acertada e mais idônea. Uma vez que nem sempre poderá atender a todos os pedidos, e para no privilegiar aquelas que posssuem maior poder de distribuição das imagens e fatos. Este fato, esta forma incomoda a chamada “grande imprensa” alijada como esta de fornecer os fatos, se não de forma secundaria, sem poder de forma mais direta manipular a informação e os pronunciamentos que a presidência faz em seu programa de rádio (café com o presidente) e nos eventos onde faz discursos falando diretamente aos grupos sociais sem a intermediação desta.

Por outro lado, se tal postura por nós é admirada e com certeza concordamos como sendo a mais acertada, devemos ponderar que a mesma deixou um buraco que antes não era pensado. A oposição ao governo ocupou este espaço deixado pelo governo “as moscas”. Dois aspectos disso devem ser comentados. O primeiro mais evidente a acima aludido é de que esta forma de comunicação depende de ocorram fatos para os seus jornais diários sejam de alguma forma interessantes para serem vendidos. Se da parte do governo não te pauta, então se busca nos detratores as pautas para cobrir este buraco. E desta forma voltar ao palanque por meio da imprensa foi, com certeza decisivo para que a campanha operada pela oposição contra a presidência. E nisto foram bem sucedidos, com o tempo os mesmo apareceram como os “comentadores” oficiais da crise. Alijados a partir da ficou o governo e o Partido dos Trabalhadores que por este motivo não conseguiram produzir por meio desta imprensa uma resposta à interpretação defendida na “Grande Imprensa”.

O segundo ponto que se deve observar é a forma como esta imprensa e a oposição vem aproveitando os “sentimentos” e as representações que estão dispersas na população sobre a política e sobre a história política do Brasil. Desde o inicio da crise a oposição não se preocupou conservar, ou preservar a imagem do congresso nacional, colocando-o como o lugar da corrupção, ou onde ela ocorre. Aproveitando-se ai já do fato de, nesta casa, haverem certos elementos que favorecem a este pensamento.

A maioria dos Brasileiros se acham incapazes de mudar as coisas e vêem a si mesmos como pobres. Pobres por natureza, no sentido de não possuir condições materiais e pobres de “espírito”. Já que às nações ditas “civilizadas” ou de “primeiro mundo” não passariam pelas mesmas “mazelas” que a nossa nação passaria. Soma-se a isto um sentimento de que “todos são ladrões” neste país. Se não são, potencialmente podem vir a ser. Isto se revela na maioria pela desconfiança que a população em geral tem das ações do Estado. Sempre vistas como sendo tomadas contra ela mesma. E aqueles que acabam por serem beneficiados um tipo ou outro de política pública sempre são vistos como sendo alguma forma de “privilegiados”, que ali entrou por “mãos” de algum “padrinho” importante que o levou a tal lugar ou a tal beneficio. A isto a representação da população da vários nomes, “compradio”, “amizade”, “Q.I” etc. Um importante Antropólogo diz que isto se revela no Brasil como sendo um forma de Ritual autoritário, que aparece para localizar as pessoas no lugar que devem ficar e nunca sair. Sempre a autoridade ou que a Hierarquia se sente contestada. A característica mais marcante desse processo é que assim desta forma, achando que todos são “malandros” e que o “jeitinho arruma tudo” as pessoas se sentem mais diminuídas ainda do que já se sentem.

Desta forma, fica carcterizado o pais dos “gersons” onde todos ao mesmo tempo que como pessoas isoladas são “inocentes” quando entram em contato com algo que os leva para além da sua condição individual se tornam tão “culpados” quanto aqueles que os fornecem “chances” par sair de tal condição. Isto se revela outra forma de pensamento recorrente na população, a que só podem ser as pessoas beneficiadas de forma individual, nunca de forma de forma coletiva. Segundo este pensamento apenas existem recompensa individual, seja por um suposto “mérito” ou pelo “jeitinho”.

Só desta forma podemos entender como acusações, mesmo que infundadas e sem provas podem se sedimentar e tornar-se verdades incontestáveis pela sua repetição. Uma vez que de saída todo e qualquer pessoa em contato com este mundo já esta “impuro” separado da vida miserável que todos julgam viver. Deste ponto de vista fica muito mais difícil se defender.

Uma vez que do ponto de vista deste pensamento todo e qualquer político se beneficia individualmente em função de possuir um lugar próprio nesta sociedade ao qual o mesmo nunca poderá alcançar. Sendo assim protegendo os seus “afilhados” e agindo “contra todos”.  É assim que podemos entender como tantas coisas neste país se misturam, como e porque as revistas semanais e jornais exploram tais fatos. Encarnado um moral que não se encontra em lugar algum na sociedade, a oposição em conjunto com a grande mídia se coloca como defensores da moralidade e contra os benefícios que tais pessoas possuiriam. E não foi uma vez que fizeram tais atos, desta forma podem esvaziar a discussão política e se esconder na demagogia. Pois o debate se torna um confrontamento entre aqueles que potencialmente possuem “moral” contra os “amorais”.

Esta forma de debate visa aproveitar-se do sentimento comum que todos nutrem de “abandono” tentando explorar as formas pelas quais os acusados se beneficiaram individualmente contrapondo-os a uma maioria que não tem acesso a tais “benefícios”. Desta forma tiram da pauta a discussão sobre o tipo de política que este país precisa seguir e qual a diferença em relação ao período passado que a atual política possui. O que é ruim para a própria democracia. Já que o debate não será de propostas, mas sim de quem pode melhor encarnar tal moral.

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