Política liquida ou pós-política?

O que alguns chamam de esfera pública e outros de sociedade civil parece estar em transformação. Muitos argumentam a partir da percepção que possuem sobre a forma com as redes sociais vem atuando no debate político, e na construção de táticas denuncistas, não apenas contra governos mas sobretudo contra diversas prática socias indecorosas, consideradas imorais, que a forma de fazer política mudou, e os velhos movimentos sociais, por serem engessados por pautas antiquadas e ultrapassadas se tornaram nada mais que entulhos, sobras de um mundo que não existe mais.
Existem diversos tipos de redes sociais, e dentro delas diversos tipos do que hoje chamam de “ativismo”. Esse fenomemo me parece correlato a outro, a existencia de organizações apartidárias e partidárias chamadas de coletivos. Estes mesmos se constroem a partir de temas não corriqueiros e quem são abordados pelas pautas políticas tradiconais, nem sempre da mesma forma nem com o mesmo conteúdo e simbolismo. A maioria se orienta por conteúdos que não são absorvidos sem reestruturar a propria forma de fazer e pensar a política, o que gera problemas para um tipo de prática excessivamente universalista, e que não consegue lidar com o que Safatle chamou outro dia de “campo social da diferenças”.
Dentro deste campo existe uma dezenas de mini-organizações ligadas a pautas reivindicatórias centradas no gênero, em sua maioria feministas, mas muitos ligados ao que pode ser considerado como a renovação dos movimentos negros, LGBT, meio ambiente, luta por outros tipos de direitos culturais e civis. Outrossim, estes movimentos tem em comum o sentimento de repulsa em relação a democracia, a quase certeza de que o sistema representativo não funcionou para superar as desigualdades históricas, nem para extinguir a miséria e a fome, nem para por fim ao machismo, racismo e a homofobia.
Paralelamente acontece uma campanha patrocinada pelos setores hegemônicos através da midia brasileira em busca da limitação do campo de atuação da política. Esse processo se pauta pela denuncia aberta de todas as iniquidades do sistema político, expondo todos os privilégios existentes nas mais diversas esferas. Mas seu centro esta ligado a confução proposital entre ética, moral e corrupção.
As limitações do sistema polítco, somado a sistema profundamente desigual, com regras complexas e funcionamento pautado por dezenas de regulações diferentes, suscetivel ao controle burocrático realizado pela propria burocracia, elevam a enésima potência as denuncias. O senso comum assim instrumentalizado se torna campo de luta, mas principalmente de reprodução de correntes de opinião ligadas ao bloco hegemônico. Isso ocorre porque o político é construido como o inimigo a ser “batido”, como o responsável por toda a “falcatruas”.
O político aparece ai como um “ente” uma figura descontextualizada da sociedade. Isso esconde as profundas relações sociais de dominação ora em vigor, escondem mostrando como parcela significativa da população está comprometida com aquelas posições ideológicas de forma consciente (ativa e passivamente) e inconsciente. Esconde mostrando como interesses dos grupos hegemonicos direcionam a política. Pautam a construção de uma moral e uma ética.
Para esse novo ativismo das redes, os novos coletivos, arrajos sociais produtivos como alguns chamam, ou qualquer das outras formas assumidas pelos menos e que constituem parte do mesmo fenômeno, as pautas das discussões são fundamentalmente as mesmas da sociedade. Isso ocorre imagino porque eles estão ligado umbilicalmente ao sistema político e cultural que construiu as condições objetivas de suas existência.
Ao qualificarem os movimentos sociais e partidos políticos como antigos, e acusarem sua “contaminação” pela política e pelas diversas correntes de esquerda os mesmos se colocam contra as forças sociais construidas pelas classes sociais trabalhadoras. Ao almejar uma ligação direta com o Estado sem se relacionar com o governo pretendem se purificar de contatos e não participar da luta política. O objetivo seria a construção de uma esfera própria de atuação como “sociedade civil” mas uma sociedade civil paralela a estas do terceiro setor, das ongs e movimentos sociais.
Ideologicamente descomprometida com a disputa, por que se pretende fora do campo de luta, comprometida com as pautas vigentes da sociedade, sobretudo meio ambiente, direitos civis e culturais, combate a corrupção etc. Tendo como estratégia política o denuncismo, os mesmos tem a mesma estratégia das forças sociais que compõe a hegemonia, assim como praticamente a mesma pauta, o que os faz desconsiderar os usos de seus temas pela mídia como isntrumentos de pressão contra as mesmas pautas que defendem. Talvez essa seja a maior contradição desta relação.
Assim tendem facilmente ao radicalismo, a construção de propostas iconoclastas e vias autoritárias de relação que não passam pela construção de consensos, expressam revoltas com situações, vontades individuais, tidas como complexas e irreconsilhaveis com a sociedade que as produziram.
Sendo a esquerda tão inimiga quanto a direita a porta para os extremismos está aberta. E justamente por isso que a hegemonia consegue pautar esses movimentos.

Anúncios

Um comentário sobre “Política liquida ou pós-política?

  1. tem toda razão, Dom, ótimo texto. quantas vezes acho que estou falando a mesma língua que outras pessoas no facebook ao fazer uma crítica curta, e depois me dou conta de que o lugar de onde estamos falando é completamente diferente, e mesmo antagônico na relação com a política (aquela do conflito, da inclusão, da não-violência), e que a tal crítica acaba reforçando a negação desta política, como se fosse possível um ator político se dissociar dela enquanto se coloca politicamente. tenho visto esse tipo de rede brotar para apoiar campanhas eleitorais sem manifestar claramente suas relações partidárias (o que, ao meu ver, não seria um problema, desde que colocado claramente). esse novo ativismo se dá em um campo muito obscurecido pela própria dinâmica em que se constitui, nas redes sociais virtuais, é preciso estar atento para não reforçar posições antagônicas ao agir ali…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s