A Relação entre Histórias em Quadrinhos e Filmes

Na última década as séries em quadrinhos foram descobertas como uma fonte de lucro para a indústria cinematográfica. Este fato salvou a indústria dos quadrinhos, principalmente as duas maiores editoras americanas e conferiu uma sobrevida aos blockbuster, também em crise.
As razões desse fenômeno não me parece estarem sendo examinadas pelos críticos, imagino porque estas indústrias são vistas como parte do sistema ideológico moderno, contemporâneo americano e por ser uma forma de literatura vista como “menor”.
Embora esta visão não esteja completamente errada ela menospreza pontos essenciais para podermos lançar luz sobre essa economia-mundo da qual o ocidente se constituiu e sobre a influência que ele próprio sofre de sistemas locais. É impossível não ver as trocas como assimétricas, nem deixar de ver um sistema de valores que é transmitido.
Acredito, porém, que esta conjuntura seja propícia para uma reelaboração interna.
Começo minha análise pelos quadrinhos indicando o que acho ser uma transformação em curso já há algum tempo. Embora a industria continue sendo americana já faz algum tempo que boa parte dos artistas são de outras partes do mundo. Isso fez com que parte da experiência local fosse inserida nessa forma de arte, podemos pensar o mesmo em relação aos roteiros. A passagem dos anos 90 para 2000 realiza esta transformação. Inclusive com a entrada de muitos brasileiros, sendo um em cargo de direção.

Neste mesmo contexto os personagens ganham em densidade e obrigatoriamente acabam tornando-se mais densos – profundos. Temos aí a razão para a mudança de alguns personagens, os que não possuíam história passam a ter. Alguns tem suas origens reformuladas, ficam mais compatíveis com a década de 00. Existe uma pressão, que ocorre em diversos meios diferentes na verdade, para que as personagens tenham mais verossimilhança com a realidade.  As personagens precisam parecer mais reais, em seus dramas, origens etc.  Podemos ver pelas novelas aqui do Brasil onde não existe mais espaço para nada que se inspire em uma forma de realismo fantástico.

Mesmo nos quadrinhos, fantástico por excelência, acontece uma constante justificação “cientifica” para tudo. Não que isso não existisse antes, mas com certeza não é mesma coisa agora.   Surge assim o problema da historicidade das personagens, a verossimilhança fica completamente comprometida devido ao longo período que a personagem cobre. Vale lembrar que o mundo mudou muito entre 1989 e 2013.

Muitas personagens forma pensadas para o período da guerra fria, houve uma adaptação ao cenário pós-socialista da qual os EUA foram única potência, que necessita de uma nova mudança devido a perda de status e o surgimento da China, dos países emergentes, e do novo cenário pós-primavera árabe – sem falar no 11 de setembro. Só assim podemos entender porque Ben Kinsley (nada contra o ator adoro ele) se torna o Mandarim!

Contudo, esta imensa mudança sócio-política que muda muito a relação política e de forças dentro do sistema internacional de Estados, passa praticamente incólume pelas revistas, a DC nem mesmo cita qualquer coisa.

A questão é que a historicidade grande cria problemas para os roteiristas, que preferem jogar para debaixo do tapete as necessidades de adaptações. De todos as personagens o Homem-Aranha é o que mais sofre nesse cenário. Como personagem de histórias solo, que possui muitas personagens de seu universo “normais”, a historicidade fica muito comprometida. Apesar de haver algumas mudanças nas personagens que lhe conferiram profundidade, J-J Jameson casou, seu editor chefe teve um filho, que cresceu e tem namorada, etc.

Cada nova década houve pelo menos um reboot das personagens. Sempre sendo adaptado a década e sempre revivendo as personagens. No Homem-Aranha isso é clássico já. A personagem foi presa ao cenário da tia bondosa do subúrbio de Nova York. Bom, é verdade de que ela se casou recentemente, mas isso só dura até o próximo reboot.

Wolverine é a outra personagem que teve sua historicidade completamente mudada a cada década. Era um personagem sem história, que foi adaptado ao presente, posteriormente sua história foi sendo ‘revelada”, até que a personagem a tivessem conscientemente após a saga “Dinastia M”. Bom, nem mesmo o acumulo formado pelo arco onde ele persegue o mutante que deu origem a “Guerra Civil” foi mantida. Este arco construía a ideia de que o “inimigo” não era externo, nem mutante, mas sim interno americano. Como podemos ver o Arco foi descontinuado. Todas as mudanças em Wolverine foram descontinuadas. Voltamos a personagem sem passado.

Qual cenário então os filmes precisam senão respeitar tangenciar? a que está ambientada nos quadrinhos ou a que vivemos?

Não quero ser hipócrita e não confessar que não gostei de muitos filmes. Muito menos não compreender que se não fossem pelos filmes era muito provável que a Marvel e a DC teriam falido e não teríamos os quadrinhos. Contudo, me reservo o direito de não gostar da forma como são feitas as adaptações e as mudanças que elas agora obrigam a cronologia e historicidade das personagens.

As Adaptações e as intervenções na Cronologia

Fiz essa longa introdução para lançar mão de alguns elementos com a finalidade de analisar melhor.  Na primeira fase dos filmes e desenhos as equipes e personagens respeitavam os quadrinhos, às personagens em si, contudo tinham roteiros adaptados de histórias da personagem.

Talvez o desenho dos X-Men para a TV tenha sido o primeiro sucesso desta fase recente. Vou me concentrar na Marvel, embora acredite que seja possível fazer o mesmo com DC. Acho que a Marvel traça um caminho que futuramente a distinta concorrência terá que seguir. Voltando, após o sucesso do desenho a equipe da revista, á época bem diferente da que era apresentada no desenho, sofre uma reformulação e sua organização fica muito próxima a TV. Lembrando que Xavier estava fora da equipe desde o n° 24 da série da Abril, Magneto não aparecia desde que havia saído dos X-Men no fim da saga inferno (+/-n°49 Abril). A equipe era: Tempestade, Vampira, Noturno, Cristal, Longshot, Destrutor, Colossus, Forge, Jubileu, Psylocke, Magneto, Wolverine, Banshee e Gambit (do numero 24 ao 49 como dito acima). Algumas outras personagens passam pela equipe sem ficar muito, como Lorna, Legião. Bem diferente da equipe do desenho liderada pelo próprio Xavier e que contava com Ciclope, Fera, Gambit, Jean, Wolverine, Challenger (que não existe na revista), jubileu e Tempestade. Na época os X-Men originais eram o X-Factor, com as sagas eles são reintegrados e se constrói duas equipes ao fim: Equipe Azul e Dourada. A azul era praticamente igual a do desenho.

“X-Men O Filme” tem a mesma estrutura, com praticamente as mesmas personagens dos quadrinhos. Mas quando os filmes são lançados à equipe já era bem diferente. Outro desenho é lançado, esse ambientado em uma escola mesmo com os mutantes bem jovens, adolescentes. Mais tarde teremos Wolverine e os X-Men. Que esteticamente reproduz o desenho da escola, mas coloca uma equipe bem diferente. Essa formação é bem próxima da equipe que será reformulada futuramente.

“X-Men First Class” tem na equipe: Destrutor, Fera, Magneto, Xavier, Mistica, Darwin, Angel e Banshee. Esta formação nunca aconteceu nos quadrinhos.

Gostei da sacada das perosonagens por ela não ser óbvia e não reproduzir os quadrinhos. Mesmo a equipe do Clube do Inferno ficou bem pensada com Sebastian Shaw, Maré selvagem, Rainha Branca, e Azazel. Acho que a força do filme vemd este pontos. Cada personagem tem uma relação diferente com os X-Men. Mas acho que justamente por ser tão diferente que  Marvel manteve nos quadrinhos um equipe completamente diferente, os direitos sobre a Franquia de filmes não estão agora com a cada das ideias.

A mais drástica reformulação é a do Homem-Aranha. Das personagens que aparecem no filme, praticamente nenhuma possuía papel na revista. A personagem havia passado pela década de 90 e sofrido suas influências. Por isso temos um Peter casado, com filho, estudante da faculdade de química, e depois professor, isso sem falar que estava com a Tia já falecida. Norman e Harry Osborne estão mortos. Jameson não possui grande entradas na revista, sendo que seu editor Robertson  aparecia mais do que a personagem icônica. Os Vilões são o Duende Macabro (os três duendes) e Venom.  A desastrada saga do Clone, e volta de Gwen Stacy (que aqui nem chegou a  sair) deram a largada para as reformulações.

Os filmes tem as personagens mais icônicas da mitologia do personagem, de reformulação em reformulação elas vão voltando. Neste momento todas estão de volta. O reaparecimento de Harry Osborne significou o desaparecimento do seu filho e esposa. A filha do Homem-Aranha nem vou comentar. Marla, mulher de Jameson volta e morre. Uma dúzia de personagens tem mudanças radicais e apagadas suas cronologias.

O novo filme, lançado em 2012, substitui Mary Jane, que não estava presente na história que dá base para o roteiro do filme – A Morte de Gwen Stacy, por esta personagem. É reintroduzido um Capitão Stacy, há muito tempo morto cronologia da revista. Aqui no Brasil as mortes da família Stacy saíram apenas como relançamento da Abril (Teia do Aranha 14 e 23).

A saga “Um Novo Dia” recoloca novamente todas as personagens, Tia May já estava morta novamente, Lagarto, Octopus, etc. Como o par romântico do filme é Gwen Stacy, Mary Jane sai da revista deixa de ser esposa. Do ponto em que esta a atual cronologia  é possível dizer que a personagem regrediu completamente em relação as transformações das décadas de 90 e 00. Temos de novo o Clown, sem dinheiro que vive dos bicos, criado no subúrbio. Todos os signos que construíam uma personagem mais profunda foram paulatinamente retirados.  Tudo isso casa muito bem com a necessidade dos filmes.

Com os Vingadores se passa o mesmo. A equipe é bem diferente da que vai aparecer no filme. Com certeza a decisão editorial tomada anteriormente que conduz a “Vingadores – O Filme” foi tomada bem antes. Por isso a reformulação começa com “Dinastia M”. A reformulação leva a uma equipe muito semelhante a do filme. Todos os personagens que não foram aproveitados foram retirados. Jaqueta Amarela, Homem-Formiga, Valete de Copas, Visão, Vespa, Feiticeira Escarlate. O desenho, que vem após o filme coloca o Hulk Bruce Barner na equipe, como no filme. Contudo, aqui no Brasil Hulk está fora dos Vingadores a muito Tempo. A revista traz o Hulk Vermelho para a revista para substituir e assim a equipe está quase igual.

Comentarei os problemas para os roteiros dos filmes antes de voltar a esse ponto. Quero conectar as grandes sagas com a reformulação dos filmes e a grande saga dos filmes.

O constrangimento aos roteiros dos Filmes

Como disse na primeira parte a analise de conjuntura permite pelo menos dizer que a cena é bem diferente daquela da década de 00. No mínimo. Um Block-Buster tem sua renda composta por 1/3 do mercado Americano e 3/4 captados nas outras partes do mundo.

A estrutura de roteiro dos “grandes filmes” é de ação. Como o tempo é escasso é necessário fazer escolhas. Este gênero tem o costume de explicar todas as origens de todas as personagens, por isso perde-se muito filme. A sequência facilita, até certo ponto, porque quando fica muito grande supõe-se que as pessoas tem dificuldade de acompanhar.

O mais patente constrangimento vem do fato de ter que adaptar a mitologia dos quadrinhos para a telona. Isso deve ser feito ainda dentro do contexto sócio-político atual. Por isso adaptações são feitas com vistas a deixar a história mais corrida. Contudo, as personagens novas e atuais refletem este novo cenário sócio-político.  Contradição está no fato de justamente por isso eles são mais complexos, e longe da imagem que as pessoas possuem sobre elas, me refiro ao caso das pessoas que não são leitoras.

Justamente por isso nenhum filme ambienta as personagens em sua cronologia atual. Provavelmente porque isso implicaria em ter personagens com profundidade, o que não combina com um filme de ação. Por isso as referencias históricas, as conexões com outras sagas, as personagens secundárias, todas as histórias paralelas são apagadas em nome de um único fio condutor.

Os filmes que mantém a densidade das personagens são se tornam BlockBusters – para mim o maior exemplo são os filmes baseados em revistas de Alan Moore. V de Vingança, Wachmen, Liga extraordinária.

Necessariamente Dramas se tornam comédias – Homem-Aranha e Lanterna Verde são os dois maiores exemplos. Necessariamente as personagens precisam sem jovens, homens brancos e solteiros.

O sucesso dos filmes produz um novo problema. A cronologia e as personagens dos filmes é bem diferente dos quadrinhos.

Os filmes ambientam as personagens no período anterior a 11 de setembro. Apesar disso a influência do contexto pós-11 de setembro poder ser observado nos filmes. Em Homem-Aranha, primeira trilogia, as personagens que representam ações mesquinhas ou desumanas são estrangeiras ou descendentes de imigrantes. O senhorio avaro de Peter é russo, o chefe insensível é latino. Estes não possuem uma razão moral para sua “maldade”, contrapõe-se assim aos vilões, que apesar de americanos possuem razões morais e se redimem no fim dos filmes.

Não obstante, as adaptações tem como base revistas históricas, mas não seguem seus roteiros. Tenho a impressão de que a maioria dos diretores desconhece as revistas. Por isso as personagens não tem qualquer verossimilhança com suas contrapartes dos quadrinhos. Eu ainda não vi o novo filme do Wolverine, mas pelo trailer acho que vi a Yokio transformada em adolescente.

A nova fase esta calcada no estúdio da própria Marvel, que tem nos Vingadores seu principal produto. Aproveita-se a estrutura dos filmes já lançados (Hulk principalmente) e monta uma mega história. Neste momento deve ter acontecido a decisão pela fusão das histórias.

Todas as personagens de Vingadores passaram por um reboot nas revistas. As Sagas que se seguem pós “Dinastia M” transformam o Homem de Ferro no principal herói Marvel, substituindo Homem-Aranha e Capitão América. Vale lembrar que Steve Rogers nem era mais o Capitão, aliás, prefiro Bucke Barnes de longe. Vale lembrar que agora a Marvel pertence a Disney, que, convenhamos tem mais experiência em filmes que a maioria.

A sagas “ X-Men Vs Vingadores” e a seguinte “Marvel Now” localizam os Vingadores no centro do Universo Marvel. Como no universo criado pelos filmes.  A série S.H.I.E.L.D apenas confirma isso. Os reboots de Wolverine o colocam como o líder da equipe mutante, mesmo que isso desrespeite toda a coerência da historicidade da personagem, passando por cima de sua cronologia e dando o reboot no período pós “Dinastia M”. Isso sem falar que esta organização enquadra a equipe no formato daquela do desenho animado Wolverine e os X-Men.

Por isso temos a reformulação do universo Marvel adequando às necessidades da produtora.

O que me deixa mais chateado nisso tudo é ver as personagens perdendo a coerência. O que me resta é torcer para que minhas personagens preferidas Homem-Aranha e X-Men voltem a ser como eram.

Retomando o inicio do meu texto, não acho que este contexto de fusão das decisões editoriais seja um fenômeno dos quadrinhos/filmes. Ela acontece dentro desta economia-mundo chamada Ocidente. A fusão das mídias leva também a uma fusão editorial. Contudo, acredito que ela não signifique um avanço de espaço do Ocidente sobre as demais economia – penso justamente o contrário. Harry Potter e os Filmes de Quadrinhos foram os únicos fenômenos verdadeiramente globais. Perde força a indústria americcana para uma restruturação local, que cria a partir de suas próprias mitologias. Neste sentido o sucesso de vingadores signifca mais um limite do que o crescimento desta indústria.

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