Uma Economia Política do Futebol – pequena analise

Acompanho futebol desde que me entendo por gente. Minhas lembranças mais antigas são de jogos ou de situações em que meu pai estava assistindo um jogo. Desde essa época vejo as mesmas críticas sendo repetidas.

A primeira delas ao modelo de gestão do futebol. Sobram criticas a CBF e as federações estaduais. Quase todas fundamentadas.

Contudo, nunca vi alguem criticar o modelo de organização.  A CBF assim como as federações são organizações que não são fruto do nosso atual período democrático. Sua organização reflete o perfil corporativista de organização e gestão que entroniza e eternisa dirigentes de futebol. Uma organização que exige que uma pessoa precisse de 9 apoios de federações estaduais para que possa ser candidata a presidencia não pode ser considerada exatamente como democrática. Existe a conecção com a estrutura política que permite que seja assim. Acredito porém que este seja mais um caso em que uma estrutura corporativa projeta-se sobre o campo das forças políticas como forma de negociação para sua manutenção.

Não Obstante, nunca vi qualquer discusão sobre qual a natureza dos clubes. Se eles são organizações privadas, filantrópicas, comunitárias, ou se são públicas.

Essa indefinição para mim tem um único objetivo, manter a fiscalização pública fora do modelo. Isso evita a fiscalização, mas o principal é mesmo evitar uma concorência igualitária a presidência.

Os clubes são organizações tradicionais, possuem burocracias tradicionais, por isso sua gestão é tradicional. O lider tradicional ocupa o cargo maior e os demais a gestão da entidade. O tempo passou e essas entidades foram protegidas pelo fechamento da economia brasileira a qualquer forma de concorrência. Mais ainda, os clubes se organizaram sempre em função de um regime de competição oligarquico sem abertura para novos membros.

Não apoio a entrada de empresas para comprar clubes e “modernizar suas estruturas”, não é isso. O problema é que os clubes Europeus montaram verdadeiramente um mercado, um regime aberto de competição que aceita novos membros. A diferença é que os times permitem que seus campeonatos possam se capitalizar.

Os clubes possuem marcas, estas tem relações com o mercado financeiro, permitem alguma abertura de capital, o mesmo tempo que seus estádios podem ter seus “nomes” comercializados.

A transparência do setor de Marketing faz com que possa surgir novas opções de investimento. Um comércio dos diretos de imagem não para uma empresa nacional oligopolista, mas para todo o ocidente.Hoje inclusive consegue entrar na China. Aqui a principal detentora dos Direitos de imagem se contenta com o que recebe dos patrocinadores em função da transmissão, nem pensa na internacionalização da marca do campeonato brasileiro.

Só assim podemos compreender como a camiseta da seleção da Inglaterra seja mais vendida do que a do Brasil. Como existem mais pessoas assitindo jogos da Champions do que da Libertadores.

Aliás, a Conmebol  é o simbolo desse atraso.

Como pode haver um David Beckham lá e não aqui? É facíl entender. Como não existe uma opção de mercado, ou seja, aqui o jogador lida apenas com o salário, as oportunidades são muito menores e tendem ao monopólio. Apenas alguns jogadores, no geral aquele que é considerado como o craque da vez, acaba fazendo todos os contratos. Ou pelo menos os mais lucrativos.

Nunca vi um jornalista perceber que a instituição da concentração ser um problema para que os jogadores possam se organizar financeiramente.

Uma marca tem mais retorno de imagem onde? Na champions ou na Libertadores? No campeonato Inglês ou no Brasileiro.

O maior atleta do planeta jogou aqui. Sua Camiseta é vendida no Mundo?

Garincha morreu a 30 anos. Alguém se organizou para construir uma marca de sua camiseta?

A mentalidade ainda é colonial. Dirigentes pensam na organização em termos dos contratos firmados com jogadores, que possivelmente podem ser vendidos, dos contratos de imagem com as TVs, e marginalmente com os ingressos.

Qual a diferença entre vender escravos, contratos ou jogadores? pois é só isso que se comenta nas mesas de discussão intermináveis “Palmeiras comprou meia do Paraguai”, “São Paulo recebe proposta para venda de Ganso” e assim vai.

Só assim podemos compreender porque para a suma maioria dos dirigentes o problema são os salários dos atletas e não a estrutura do mercado.

Em termos de capital isso significa o seguinte, vende-se o jogador de forma colonial – aliás o raciocínio economico por trás  é mercantilista ainda. Com o dinheiro são contratados novos jogadores, dos quais se espera que no fim do campeonato possam ser vendidos. Por isso que as multas são tão altas para a rescisão dos contratos.  Acontece que poucos são vendidos. Aquele dinheiro que entrou no caixa foi destruido enquanto meio de valor e não forma capital. Por isso sempre precisa vender mais, a conta não fecha.

Alguns times brasileiros parecem querer acordar e se organizaram para ter estádios novos. É possível capitalizar o time a partir de sua torcida. Pelo ingresso com um time com jogadores de peso etc.

Corinthians, Palmeiras, Internacional, Grêmio, São Paulo, e aqueles que ficarem com as gestões dos estádios da copa estaram na nova elite do futebol. Os demais estaram no segundo plano, ainda que todos permaneçam dentro de estrutura tradicional de dominação. Contudo, apontam para a troca da forma de dominação, em vez de serem pautados pela lógica externa do Marketing da TV estaram se organizando  a partir das suas lógicas de Marketing.

Resta comentar o calendário, ele é apenas reflexo desta dominação. Por isso a Capitalização dos Clubes em campeonatos externos não acontece. Aliás, aconteceu a primeira ruptura.  O Atlético Paranaense se organizou para fazer pré-temporada e excursão externa. Não se contentou com a renda da TV e colocou seu time sub 23 para jogar.

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2 comentários sobre “Uma Economia Política do Futebol – pequena analise

  1. Fala grande Dom,

    Acho que uma frase que sintetiza muito bem esse seu excelente texto é: A mentalidade ainda é colonial.

    As coisas devem mudar a partir daí, da mentalidade e dessa oligarquização do futebol brasileiro ( e latino tambem), só assim melhores coisas virão para o publico e para os próprios clubes.
    Interessante quando você pontua que, os times que nao ficarem com as modernas arenas estarão sentenciados a formarem um 2 escalao, nunca pensei nisso, e é exatamente isso o que irá acontecer….

    Abs

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