Sobre o PIB: Notas sobre como a Globo sequestra a Realidade e o debate Profundo de Propostas

Fiquei incomodado com a forma como as informações sobre o PIB são comunicadas. E como o jogo, a luta econômica entre os agentes são escondidas em uma falsa competição entre pessoas e por competências.

O PIB possui um valor absoluto e é a soma de todo os valores obtidos por bens e serviços em um determinado período de tempo.

Quando discutimos qual a variação do PIB estamos discutindo o acréscimo feito a cada área produtiva do Brasil, comparando um período com outro.

Quando se apresenta uma comparação é preciso pensar em relação a que esta comparação esta sendo feita.

O anúncio PIB trimestral é uma comparação com o do trimestre anterior (o que dá um percentual) e com o mesmo trimestre do ano anterior (o que dá outro número). Se a variação é positiva isso significa que houve um acrescimo em relação a um outro período.  O valor total do PIB será a soma dos 4 trimestres de 2013.

Portanto, a escolha do ponto de comparação determina a mensagem que será passada.

Um bom jornalista apresentaria todas as informações e comparações, um jornalismo interessado em conduzir a percepção sobre a informação esconde a que não lhe interessa.

No jornal nacional Willian Bonner ao comentar sobre o volume do investimento estrangeiro direto preferiu informar sobre a variação ao mesmo trimestre do ano passado. A resposta do governo foi de que a soma dos investimentos desse ano (2013) coloca o Brasil em 6°lugar no mundo. A reportagem mostrou uma comparação em um gráfico entre 2012 e 2013. Que coloca o Brasil em 8°lugar.

As duas informações são verdadeiras, contudo, o apresentador montou a reportagem de forma a desautorizar a visão defendida pelo governo. De forma bem sutil o apresentador acrescentou a palavra “segundo” antes de falar a versão do governo, ou seja: apresentando-a de forma desautorizada. Segundo a mensagem que queria passar e conduzir a percepção sobre o fato.

Além disso temos que nos ater ao fato de que a percepção como “bom” ou “ruim” depende do ponto de vista a qual se fala. E qual interesse associado ao ponto de vista.

Então, como trabalhador, defendo a manutenção do nível de empregos e crescimento do salário. De acordo com a variação do PIB e da inflação.

Como empresa, a Globo “culpa” os salários como fonte da inflação.

Só assim podemos entender como em determinado dia o Jornal da Globo fez uma longa matéria para explicar como os salários “pressionam” a inflação, como o “custo Brasil” cresceu com os salários.

A crítica ao PIB, mais especificamente ao crescimento do PIB, tem como fundamento a visão de economia que quer ser passada como sendo “geral” e única. Tentando estabelecer a ideia de que a economia pode ser “melhor” com mais PIB.

Friso: a proposta aqui não é o crescimento do salário sem inflação, embora seja martelado o tempo todo que a inflação é ruim para os salários, o que esta sendo defendido é que haja a redução de todos os fatores que levam a inflação, inclusive o salário.

Você pode encontrar fartamente na internet Aécio Neves, e economistas tucanos defendendo o “ajuste fiscal”. Marina Silva e Eduardo Campos fizeram ambos críticas à economia afirmando ser necessário a realização de um “duro” ajuste, nas palavras de Eduardo Campo.

Ora,  Ajuste fiscal significa reduzir os gastos do governo (leia-se reduzir gastos com saúde, educação e combate a pobreza).  Contudo, ninguém diz isso com essas palavras, apesar de seus economistas dizerem abertamente.  

Como ser lido nos links abaixo :

Eduardo Campos:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1362765-para-campos-sera-inevitavel-duro-ajuste-fiscal-pos-eleicao.shtml

Marina Silva:

http://eleicoes.uol.com.br/2010/ultimas-noticias/2010/08/31/marina-silva-diz-que-ajuste-fiscal-deve-ser-feito-progressivamente.jhtm

Economista ligado a Tucanos:

http://www.brasil247.com/pt/247/economia/97274/

Qual a questão de fundo, e quais são as propostas em disputa?

De um lado temos a proposta neodesenvolvimentista do Governo Federal em crescer com a industria nacional pautada no crescimento do emprego e do consumo e exportações. Pautada em amplo programa de distribuição da renda, por salários, programas sociais, e previdência. Pretende o combate a inflação como forma de consequência de sua política. 

De outro a visão neoliberal que defende a redução dos gastos do governo, aumento dos juros básicos (o que leva a elevação dos juros reais e que incidem sobre o crédito usados para consumo pelos indivíduos), aumento do superávit primário (redução dos gastos com vistas para pagamentos de juros da dívida), aumento do desemprego como forma de redução do consumo. Arroxo salarial.

Existe um esforço contínuo em apresentar a inflação como um problema geral.

Sem explicar que ela incide principalmente sobre os ganhos do setor financeiro.

O que querem é, ao criticar o PIB, impor as soluções que lhes interessam.

Para compreender isso é preciso não estabelecer uma ligação direta e mecânica entre lucro, emprego, crescimento, desemprego, e PIB  para compreender melhor esta questão.

A maioria das pessoas imagina que se crescermos, isso será de forma igual, o que não é verdade , nem é o que parte dos críticos defendem. Mas são levadas a acreditar porque não duvidam de uma visão “cientificamente” embasada.

Mesmo assim uma pessoa ainda pode ter algumas dúvidas e poderia perguntar: As empresas tiveram lucro este ano?

Resposta: Sim, na indústria e no comércio principalmente, alguns setores da indústria sofrem concorrência, alguns setores do agronegócio tiveram problemas em virtude dos preços internacionais, e alguns em função de chuva e etc tiveram problemas mas no geral sim, tiveram lucro.

O setor bancário teve lucro?

Resposta: sim.

O emprego caiu?

Resposta: Ao contrário, manteve-se elevado com taxa de 5% desemprego. É preciso explicar uma coisa aqui. A taxa  desemprego se mantém, mas todos os anos temos mais e mais pessoas tornando-se “economicamente ativas”  o que significa que a economia esta absorvendo a nova mão de obra. Ano a ano. É preciso ainda notar uma crescente taxa de formalização do trabalho. Mais e mais pessoas estão transformando-se em assalariados com carteira. O que melhora o déficit da previdência.

Se por um acaso o crescimento fosse 0% tudo isso ainda seria a mesma coisa.

Então, qual o sentido da crítica ao PIB?

Primeiro estabelecer algumas relações que favorecem a grande indústria/setor financeiro/agronegócio não disposto a conviver com crescimento da renda, divisão da renda, redução da pobreza por ver como ameça ao seu controle político sobre a economia.

Defende-se um crescimento do PIB sem que isso esteja relacionado a divisão da renda.

Isso não quer dizer que todos pensam assim.  o artigo baixo mostra, com textos publicados na própria grande mídia como a inflação tem pouco haver com o emprego/desemprego:

http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/analisando-a-taxa-de-desemprego-no-brasil

A análise  mais detida da realidade, da inflação envolveria uma quantidade enorme de dados, mas substancialmente exigiria outra visão menos preconceituosa em relação ao consumo e ao emprego.

É demagogia defender crescimento com inflação de 0%.  Porque não absorve a quantidade de pessoas que se tornam economicamente ativas todos os anos. A inflação é um consequência do próprio crescimento.

O texto acima aponta para uma importante mudança de ordem demográfica, o começo de uma queda do percentual de pessoas economicamente ativas. Devido ao envelhecimento da população e aumento expectativa de vida da população. Paralelamente cresceu o número de anos que os jovens passam estudando. Ao mesmo tempo que o crescimento da renda fez com que menos idosos procurassem complementação em empregos.

Existe então uma cadeia de fatores inter-relacionados desprezada pela análise que se fia exclusivamente pela visão financeira da economia. Quando o debate centra-se na discussão sobre avanços e recuos da inflação, a exigência do mercado pelo aumento dos juros, superávit, “ajuste fiscal” foge-se as questões que são mais importantes sobre a economia.

Qual ou quais são as medidas necessárias para termos crescimento e emprego?

Como sustentar uma política  de combate a pobreza que leve a formação de renda? 

Como se coloca as nossas escolhas internas frente as necessidades externas criadas pela economia globalizada?

O que vemos é um debate encoberto pela perspectiva dos grandes grupos financeiros e corporações. Fato notado por Nassif:

http://jornalggn.com.br/noticia/a-utopia-improvavel-de-marina-silva

Não raro esse debate é encoberto por uma perspectiva moral, oriunda de uma elite que reconhece apenas a escola como fonte “legítima” para a ascensão das massas. Por isso tantos preconceitos com o fome zero. Como nota um dos mais brilhantes sociólogos que já tivemos, Antonio Candido:

http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/A-escola-resolve-o-nosso-apartheid-/29735

Contudo, a esquerda  e todo campo progressista precisa se apropriar desse debate. Uma vez que o mesmo tem como finalidade impedir qualquer agenda positiva, independente de quem quer que seja a Presidenta. Precismos escapar das análises voluntaristas da economia, assim como de visão excessivamente desenvolvimentistas. A meu ver essa agenda meodesenvolvimentista se acentua também em função de não haver um contra discurso no campo de debate.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s