O “nosso” Batman” e o choque de Visões totalitárias.

OBS: escrevi esse texto para meu amigo Gabriel no facebook.

Gabriel meu parça, vi seu post e não resisti. Primeiro parabéns pela sua recente dádiva. segundo, feliz 2014. Primeiro a violência virou algo banal e uma classe média, que é bem representada pela figura do “Batman” no vídeo. Em diversos momentos tenta-se justificar e legitimar a violência como recurso, quase sempre a partir de informações distorcidas e contraditórias. As figuras que se avolumam no vídeo chamadas pelo “Batman” são expressões da mesma classe média carioca, narcisista e auto enganada em relação a sua imagem e lugar no mundo. O fato de a personagem “Batman” dizer “venho para rua para combater”, e emendar dizendo perguntando “quantas manifestações você veio?” se dirigindo ao cineasta, expressa o significados que a pessoa por trás da personagem utiliza para apreender o mundo.

Por mais que saiba que o RJ a disputa com o poder é infinitamente mais difícil, por mais que eu saiba que o judiciário estadual esta mais do que cooptado pelo executivo estadual em função de promoções corporativas, o “Batman” não procura construir o “apoio popular” em direção a uma “escolha popular da direção do estado do RJ”, um “governo do povo”. Ele representa a classe média auto-esclarecida à qual cada um individualmente sabe o que é melhor para todos e precisa impor aos outros essa visão, por isso que nesse encontro improvável do vídeo não existe possibilidade de diálogo, porque cada um “sabe”, e é dono da verdade. Acho que não dá para generalizar para todos os lugares as características das manifestações do RJ e os problemas do estado. Não dá para julgar o todo pelas partes em assunto nenhum, mas infelizmente esse é o maior saldo de junho. Cabe notar que cada um elege um “inimigo” e o projeta sobre os outros, seja o capitalismo imperialista, o golpe comunista, o “governo”, ninguém é republicano nem democrata aí. Acho que o RJ a violência com a qual o estado já convive seja um fator que facilita, mas acho que é especialmente diferente dos demais estados. Vale lembrar que todos no vídeo excluem a participação popular nas decisões. Voltando ao “nosso” “Batman” acho que cabe algumas palavras. Acho que conheço um pouco da personagem, rs. Bom, o Batman escolhido é o filme da série do Christopher Nolan. Como sabemos o “inimigo” é a “revolução” proposta por personagens de origem Árabe (Bane) e da “Europa oriental” (Has al ghul e tália ha al ghul) – visualmente, mas também representando nomes Árabes, combinando duas “origens” diferentes que possui a semelhança de serem vistas como as principais ‘oposições” à hegemonia Americana, segundo os americanos lógico.  Personagens que lideram um grupo – a “liga da sombras” – que caracteriza todos os governos como corruptos e todos os seus agentes como inimigos. o “povo” precisa ser salvo e para isso é necessário recorrer a violência como forma de expurgar os pecados das novas “Sodomas”.

A ‘saída” é a derrubada violenta do poder. o Bruce Wayne do filme representa o poder “bom”. O capitalismo bonzinho representado pela família perfeita do filantropo Thomas Wayne, que possui uma corporação centenária que sempre esteve ao “lado dos oprimidos”. da escravidão “aos dias atuais”. Apesar da riqueza as personagens escolhem o caminho da “pureza”, a bondade pura é aquela que não é tocada pela política, por isso Thomas  é médico. Bruce torna-se um vigilante, que faz justiçamentos. a certeza de que o poder é incompetente, ineficaz para atender as necessidades de “justiça”, no sentido de igualdade diante da lei e não social contra a pobreza, é o que move Batman, também auto esclarecido e portador da certeza moral. A solução final é a “mudança pessoal” das pessoas com sua “consciência’, das relações interpessoais, que no futuro poderiam construir uma cidade melhor, preservando as divisões de classe, mas com a ‘bondade” e pureza de um capitalismo de governo mínimo poderia salvar a todos. Profundamente reacionário é esse Batman de Nolan, que constrói a “diferença” como símbolo de quem quer uma proposta “totalitária”. por isso seus inimigos são sempre os “outros”. Nossos “outros” e para a classe média é a população. Para uma classe média é a do “rolezinho”, para outro a “comunista” , ela própria em sua versão de ‘direita” e o “governo”.

Para mim “esse Batman” de Nolan casa perfeitamente com a visão de mundo do Batman do vídeo. Não é o Batman do Tim Burton. Onde os inimigos são arquétipos das neuroses universais, e a personagem ela própria um arquétipo da neurose. Isso para ficar nos filmes, nos quadrinhos “Bruce Wayne” em hipótese alguma ficaria ao lado da elite econômica do país, porque a visão liberal do laissez faire, laissez aller, laissez passer; Universalmente representado por Adam Smith na economia e Locke na política. Porque uma das caraterísticas da personagem é se colocar acima das outras por colocar como o “puro”. Para mim, em todas as suas caracterizações representa uma visão Hobbesiana. ‘Esse’ Batman do Rio de Janeiro para mim aparenta-se nos quadrinhos com Batman Azrel – Jean-Paul Valley. Uma representação/arquétipo do Leviatã. Como o do vídeo. E cada um que aparece ali. Cabe dizer que em nenhuma das caracterizações de Batman – Bruce Wayne, representa uma proposta política de derrubada ou substituição do poder. E acredito que nas telas Tim Burton captou corretamente o espírito da personagem, mais que a versão reacionária de Nolan.

Não estou aqui discutindo os problemas em si, apenas as visões de mundo em choque que aparecem no vídeo e as ideologias mais ou menos inconscientes que esposam. Gabriel se entendi, concordo com você sobre o “legado de junho”. Posso não ter muita certeza sobre as coisas, mas uma coisa eu posso afirmar, essa pessoa do Rio de Janeiro não conhece nada de Batman, não que eu seja especialista, mas acho que posso dizer algumas coisas sobre isso.

Acho importante discutir as propostas violentas e suas consequências. Não podemos legitima-las.

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2 comentários sobre “O “nosso” Batman” e o choque de Visões totalitárias.

  1. Salve, Dom!!!
    Meu caro, esse vídeo mostra um surrealismo que deixaria até Salvador Dalí com os bigodes encharcados de recalque: “fascista sem ser de Direita” me deixou estupefacto huahahuahahahua
    Bom, você pediu (acredito) minha opinião sobre captar “o espírito do Batman” e discordei da maneira como interpretou a Trilogia Cavaleiro das Trevas do Nolan. Creio que o Batman, enquanto artefato de uma indústria cultural é produto. E ponto. Mas como produto cultural, ele é apropriado e reapropriado, alterando, até mesmo, seu significado original. No caso, um personagem nascido diretamente da Grande Depressão nos EUA e fruto de um de seus efeitos perversos: a criminalidade. O Batman de 1939 criado por Bob Kane e o Batman de Nolan, neste sentido, são os mesmos, mas as similaridades param por aí. Batman, ou melhor, Bruce Wayne é um personagem rico (Engels também não era?) e usa essa riqueza para filantropia (mas não apenas) e também, clandestinamente, para financiar o Batman e o combate ao crime. Seus métodos são fascistas? Até onde me lembro do Batman de Nolan (e o atual dos quadrinhos) ele se recusa a adotar para si a idéia de um Líder em favor de Harvey Denti (o que se prova um erro) e mais: se recusa a utilizar o “Big Brother” que rastreava todos os celulares de Gotham para vigia-la em nome de uma pretensa “segurança”. Ser Juiz, Júri e Executor, então, não é retratado em momento algum da Trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.
    Outro ponto que levantou é que o Batman de Nolan representaria o imperialismo estadunidense. Mas até que ponto é consistente essa correlação? Por causa de Ras Al Ghul, Bane e a Liga dos Assassinos? Não vejo muito sentido em atribuir ao último filme uma dicotomia entre “capitalistas maus representados pelo Batman e a ordem e status quo” e “socialistas bonzinhos representados por Bane e uma revolução social”. Não tem sentido algum porque a ideologia que há na Liga dos Assassinos, melhor, Liga das Sombras, é uma ideologia que precede “capitalismo e socialismo”. É uma ideologia fatalista tipicamente maniqueísta que me faz lembrar, muito mais, a idéia de polis civilizada grega e a barbárie estrangeira. A limpeza que se propõe fazer Ras al Ghul e a Liga das Sombras de cidades “perdidas” como Gotham é muito mais escatologica que amparada numa “luta de classes”. A Liga das Sombras não reage a “uma invasão gothamita” a um Estado do Oriente Médio. Ao contrário, Bane e a Liga das Sombras é que agem para derrubar governos e sem nenhuma intenção de dar ao povo o poder político. Isso quer dizer que os EUA são bonzinhos no filme? Longe disso. Até abandonam Gotham à própria sorte.
    A falsa dissolução do Estado é, como disse, falsa. Auto-organização desde que o controle decisório esteja com “os camaradas”? O Batman, neste sentido, é a representação da vontade individual de resistência de cada um e cada uma em Gotham. Representa o Estado? Só se for o Estado agindo de forma paralela, o que muitas e muitas vezes é nefasto. Mas desta forma, como retratado no filme, o é? Não, em minha opinião. Acho que poderia escrever mais e mais sobre a Trilogia Cavaleiro das Trevas do Nolan e até pensei em escrever um post no meu blog, mas fica para uma próxima.

    1. Salve Diego! muito obrigado pelo comentário! Realmente concordo com várias coisas que você escreveu. A primeira é que realmente não dá para ler o Batman de Nolan ou qualquer outro pela ótica marxista da luta de classes, na verdade não era essa a minha intensão. Meu intuito era que alguns elementos usados na reinterpretação da personagem pelo diretor casavam com uma visão fascista desse “Batman do Rio de Janeiro”. Mas absolutamente não queria caracteriza-lo o Batman/Bruce Wayne como fascista. As visões totalitárias que me refiro no nome do texto são as das pessoas no vídeo e não as do Batman nos quadrinhos e filme, acho não deixei evidente isso, vou fazer um novo post retificando. rs.

      Em relação a forma do “capitalismo” “representado” pelo Bruce e Thomas Wayne também concordo com você, apesar da minha crítica de fundo não queria salvar a visão de Bane e Ras Al Ghul como representando uma possibilidade, nem que o socialismo seria a saída, mas como não entro no assunto fica como se eu tivesse esposando uma visão marxista, então concordo com a sua crítica. Devo melhorar minha ponte com o vídeo, novamente, quem eu considero não democráticos e republicanos são as pessoas que aparecem nesse episódio surreal rs.

      Muito obrigado pela crítica, já sou seguidor do seu blog agora e vou coloca-lo entre os links do meu! abração Diego!

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