A profissionalização do Futebol – parte I

Toda vez que um time “grande” acaba mal um campeonato, na maioria das vezes quando é rebaixado, ele assume o discurso da profissionalização. Isso aconteceu agora com o Palmeiras mas já aconteceu milhões de vezes com os mais diversos times das mas diversas divisões. Diante disso comecei a acompanhar o recente caso de meu time, e me deparei com alguns pontos que acho interessantes.

Em primeiro lugar, o que significa profissionalizar? no geral é usado como sinônimo de “sanear as contas”. Foi o que o novo Presidente do Palmeiras fez agora, contratou nove jogadores sem custos de operação, colocou em prática uma nova proposta de sócio-torcedor e esta reestruturando o Marketing do clube. Irá separar as contas do futebol das contas do clube social, dentre outras coisas. O último a fazer isso foi o Corinthians com Adreas Sanchez, com resultados inquestionáveis. O São Paulo, Internacional e Cruzeiro já a algum tempo tem gestões com “responsabilidade fiscal”.

Contudo, estes mesmos clubes já passaram por turburlências antes, o Internacional acabou de passar por uma, montou um time com uma folha de pagamento cara e não conseguiu ser campeão nem do Brasileiro, nem conseguiu uma vaga na libertadores desse ano. Grêmio acabou de montar um elenco estrelado e caro. Assim como Fluminense mantém, tendo conseguido com isso o título brasileiro, e agora disputa a Libertadores como um dos favoritos.  Por que isso acontece? por que ocorre esse ciclo?

Considerando que nossa economia é mais forte do que todos os nossos vizinhos e mais forte do que a maioria dos países europeus, considerando que nosso futebol é um dos mais, senão o mais admirado pelo mundo, como pode nosso campeonato ser mais fraco que de nossos vizinhos da Argentina?

Como pode nosso campeonato nacional ser menos exibido no mundo do que o inglês e o espanhol (que a bem da verdade tem dois times apenas)? Como é possível que a camiseta da Inglaterra seja mais vendida do que a do Brasil?

São tantos paradoxos. Impressionante é que existe mais outros tantos. Você já se perguntou o que é o STJD? de onde ele vem e qual a base de seus “julgamentos”? certa vez perguntei a um amigo advogado, ele não sabia me responder.

Você já se perguntou: Se essas Conmebol, CBF, são arcaicas e incopetentes por que são as instituições que representam o futebol (na América do Sul e Brasil, respectivamente)?

Um tempo atrás vi um comentarista perguntar à um dirigente do Atlético Mineiro se o Ronaldinho Gaúcho já havia dado “lucro” ao clube. Na hora pensei: “mas por que um time de futebol precisa pensar em lucro? se a sua finalidade última é representar uma “comunidade”?”

A palavra mercado é aceita e reproduzida sem maiores alardes. O “mercado da bola” é um tema surrado nas mesas redondas.

A resposta começa pela caracterização dos clubes. No geral são entidades sem fins lucrativos, criadas por comunidades de bairro, cidades, ou que representam uma “etnia” ou “classe”. Possuem geralmente associados e uma estrutura social – mote para que as pessoas sejam sócias. Possuem piscinas, campos, quadras e outros esportes. Necessitam de uma burocracia para a gerência da estutura. Nem todos nasceram como clubes de futebol, embora haja alguns que nasceram exclusivamente como times de futebol e não possuem ou nunca possuiram área social e de lazer.

Originalmente a relação clube/time e comunidade era “direta” (essa relação é complexa, em outro momento irei pensar melhor sobre isso). Os jogadores eram a expressão da comunidade. Embora o assalariamento seja um fenômeno antigo, os jogadores contratados eram do bairro, da etnia, da comunidade que dava vida à instituição. Não é exagero pensar que nasceram como “organizações de massa”. Em uma estrutura política onde não havia competição pública, onde  a participação política era restrita, estes espaços eram ilhas de pertencimento simbólico, formação de “laços sociais” e de pertencimento a uma história e cultura. O clube era uma forma de mobilização de massa e era a representação de uma comunidade interpretativa, uma estrutura de sentimentos.

Diversos fatores aos poucos minaram esta relação. Sucessivas ditaduras, apagamento da história, etc. Durante este período o futebol foi alçado à principal elemento do clube. Aos poucos formo-se um regime de competição entre as agremiações, para além da disputa do campeonato estava a transposição para o campo de uma luta simbolica entre diferentes “comunidades”.

Foram décadas do domínio do futebol sobre todos as outras formas de integração do clube. Como principal forma de mobilização. A constituição da torcida para além dos espaços do clube, da cidade e mesmo do estado fez surgir uma nova relação dada diretamente entre a pessoa e clube, sem a mediação da estrutura física sob a qual se assenta.

O crescimento e formação da torcida em décadas não representou a transformação da estrutura e da burocracia. Se a quantidade de pessoas que tinham como referencia o clube aumentou, isso não significou que as “comunidades” tenha espandido suas instalações nos espaços onde cresceram as torcidas. Na verdade não existem fora das imediações de seus estádios. Não existem nem mesmo no interior dos seus estados.

As transformações econômicas pela qual o país passou transformou a participação e a relação com o clube. O jogador profissional torna-se uma realidade dentro dos campos, ele, metonimicamente e metafóricamente, é a “comunidade”. Isso ocorre paralelamete ao enfraquecimento da relação de pertencimento dentro da “comunidade”.

O Time torna-se algo que pertence a “comunidade”e a torcida. Divide-se em dois mundos. Entre um processo de esvaziamento da comunidade e de sua participação na instuição fisíca, tendo em vista que o número de associados se estabiliza e torna-se um bem acessível a poucos, acompanhado do crescimento da torcida – que se limita a frequentar os estádios e comprar materiais, sobretudo camisetas do clube.

Ao longo do tempo o esvaziamento acompanhado do crescimento dos custos de sustentação do clube , na verdade do time,  cresceram muito mais do que a capacidade de arrecadação. A torcida tornou-se algo separado da vida do clube, uma entidade independente que não se responsabiliza fora do plano simbólico pelo time. Essa questão precisa ser melhor analisada. Farei isso em uma segunda parte desse texto. É preciso deixar bem evidente que o problema dos custos não vem dos salários dos jogadores, mas das décadas de falta de visão estratégica.

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