Jon Snow é um Bastardo? Atualizado

PS: A partir das críticas de Felipe Bini fiz alterações no texto. Cometi alguns erros em relação ao cânone da série e dos livros, por isso acatei quase integralmente as críticas. Elas também ajudaram a deixar o texto mais direto.

Jon Snow é um Bastardo? Atualizado

Não há uma resposta apenas para essa pergunta. Vi e ouvi respostas diferentes durante a semana. Assisto com frequência o canal “Território Nerd”, cujo autor é Ricardo Rente. Muito bom por sinal. Lá em seu comentário sobre o episódio 10 não titubeou ao firmar que Jon Stark Targaryen não era bastardo. veja aqui o link para o canal.

No site Game Of Thrones Br há um texto grande que discute a instituição da “bastardia” no “mundo de gelo e fogo”, você pode ler aqui.

Há os que pensam que Jon, revelado como filho de Lyanna Stark e Rhaegar Tagaryen, é Bastardo porque seria a personagem um filho fora do casamento da mesma forma, há os que pensam que seja possível que Rhaegar e Lyanna possam ter casado.

A favor desse segundo argumento existe o fato de os Targaryens possuírem a licença da fé dos sete para ter mais de um casamento.A favor do primeiro argumento existiria o fato de ser impossível provar isso, provar não ser bastarda por isso.

Para desenvolver minha análise vou dividir em dois momentos a historicidade de Westeros.

O primeiro momento compreende toda a temporalidade, a historicidade de Westeros e sua cultura até o fim do Reinado de Robert Baratheon. Acho que esse período é bem analisado pelo texto que citei acima. Felipe Bini relaciona direitos e cultura, e mostra a forma como a configuração do bastardo como um papel social, sendo ele um elemento marginal constituído pelo poder.

De acordo com minha premissa poderíamos pensar um segundo período, que compreende tudo que ocorre a partir da morte de Robert Baratheon.

Isso porque vou considerar que Westeros entra em uma crise de hegemonia. A tal ponto que guerras  ameaçam a integridade da unidade política. Neste sentido, ameaçam a integridade da soberania política. Possibilitando a multiplicação de soberanias. Praticamente cada lorde torna-se soberano de si próprio. Na série essa situação de fragmentação é ainda maior após a morte do Rei Tommen.

Portanto, vou me debruçar mais na série. Os livros possuem diferenças significativas com a série. Posteriormente vou tentar desenvolver essas diferenças. No entanto, vou usar em alguns momentos os livros, onde acho que a diferença é mínima. Outro ponto importante é que ao discutir se Jon deixa de ser um bastardo não estou implicitamente considerando a personagem como legítimo pretendente ao trono, em detrimento de Daenerys. Acredito haverá aqui uma profunda diferença entre a série e os livros. Na minha visão nos livros Daenerys nunca voltará a Westeros. Isso é uma visão particular minha. Por enquanto sem fundamento.

Um ponto que é importante para fazer uma análise como essa é pensar que o Norte e Dorne se constituem etnicamente diferenciados do poder central. São duas culturas que se pensam com origens diferentes, histórias e tradições diferentes. Mais adiante vou desenvolver esse ponto, e mostrar como a hegemonia depende de equilibrar esse jogo. Isso também é uma premissa desse excerto.

Acredito que o poder político que sustentava os direitos e os deveres foi pulverizado. Sendo assim, a tradição fonte de definição de estereótipos, não definirá o poder e a legitimidade deste no continente – no pós-guerra.  O contrato político que sustentava a tradição e as leis que vigoravam na dinastia Targaryen, e também no Reinado de Robert tem a sua validade suspensa, a partir do estado de guerra de todos contra todos que começa com a morte de Robert.

Para mim, o que passa a estar em jogo  é a definição de quem será o “Rei/Rainha” e também a nova soberania política do continente – a nova legitimidade do poder. A definição da identidade de Jon depende dessas definições.

Seguindo um famoso aforismo, “a guerra é a política feita por outros meios” (de Clausewitz), quero apontar que Jon se estabeleceu na sexta temporada como o comandante em chefe do norte.primeiro passo para a sua transformação social.

Suponho que Bran venha a revelar a descendência de Jon de forma pública. Caso isso aconteça, e acredito que vá acontecer, a difusão dessa descendência deverá  reforçar a sua condição como soberano do Norte. Ainda que aos olhos da tradição e das pessoas seja um bastardo. O reconhecimento das Casas do Norte de sua soberania é o primeiro fundamento da sua legitimidade, elemento que introduz a mudança de conteúdos políticos e sociais.

A mudança que acredito ser possível com Jon é semelhante a que anos antes Brynden Rivers fez. Como alguém que apesar da origem social estigmatizada consegue passar pelos cargos no pequeno conselho, como “mestre dos sussurros”, depois como Mão do Rei. Mais tarde completa a sua trajetória pública como Senhor Comandante da Patrulha da Noite. Em todos os momentos essa personagem enfrentou o preconceito social. Sor Duncan – O Alto, personagem contemporânea do Lorde Corvo de Sangue, personagem com atos reconhecidos como de grande importância social também cria condições para a transformação da cultura dessa sociedade.

Imagino que Martin em seu texto queira com essas personagens demonstrar como a ação social, a agência sendo mais específico, é capaz de introduzir mudanças culturais que ultrapassam o alcance direto de suas ações e vidas. Acho a trajetória desses personagens bem semelhantes. Contudo, poderia estender esse raciocínio a Daenerys.

A estabilidade política foi a maior conquista de Brynden Rivers, assim como acontece com Jon no Norte após a batalha no nono episódio. A guerra é política, os apoios das casas são políticos. A sua configuração como soberano é o resultado da soma das vontades políticas das casas do norte. A declaração dos Lordes nesse episódio configura a reunião das vontades políticas dessas casas.

Jon, visto como um descendente dos “primeiros homens“, não se diferencia etnicamente daqueles chamados de “selvagens”. A sua aliança com esse grupo começa por Mance Ryder, e passa por Tormund. A passagem pela muralha muda a configuração política, por mais que não sejam súditos no stricto sentido do termo, é um novo corpo político que segue um comandante militar, no caso , Jon.

Ramsay Bolton ao encontrar com Jon antes da batalha nos trás outro elemento. A população vê com Jon como herói de guerra, aquele sobre o qual se canta estórias. Ramsay nos comunica, na série, nesse ponto, que Jon é um herói do Norte.

Desta forma, constituído como herói de guerra, ex-defensor da muralha, herdeiro do status positivo da governança de Ned Stark como protetor do Norte, e vitorioso contra um lorde ilegítimo e traidor do Norte, Jon muda de status político.

É como existisse dois Jons. O primeiro que conhecemos que estabelece uma nova correlação de forças. E o segundo, o herói das estórias. Politicamente e culturalmente ele se torna maior que a sua condição de nascimento. Transcende a sua condição de nascimento.

Tal qual Daenerys, Jon é a personagem que introduz a mudança política e cultural. Através da fusão de povos (Norte e selvagens), como libertador do Norte do jugo ilegítimo.

Acho possível estender esse raciocínio para a questão da morte de Jon. Metonimicamente ouve ali a morte simbólica de Jon Snow e o nascimento dessa nova pessoa que agrega novos conteúdos a sua identidade a cada passo. Na minha visão Jon Snow simbolicamente morreu e não ressuscitou.  Nasce o novo Jon, em primeiro lugar, Stark. Em breve Targaryen. O príncipe que foi prometido.

De novo poderíamos aqui fazer o paralelo com Daenerys. O seu “nascimento” como “mãe dos dragões”, da origem a sucessão de eventos que agregam conteúdos a sua persona, “mhysa”, “Quebradora de correntes” etc.  Ambos são marcados por um ritual de passagem que os transformam e configuram suas novas identidades. Abrindo-os para seu novo arco dramático.

Portanto, Jon será  um dos responsáveis por estabelecer um novo consenso político para Westeros. Bom, segundo penso, um dos três que vão carregar nos ombros essa responsabilidade ( “O Dragão tem Três Cabeças”).

Se eu seguir a teoria do contrato social, cujos autores são conhecidos pelo nome de “contratualistas”, entre os quais se encontram John Locke, Rousseau e Hobbes. Westeros não possui mais instituições, a guerra aniquilou toda e qualquer fonte de legitimidade. Poderíamos aproximar essa situação do “estado de guerra”de Hobbes, onde há a luta de todos contra todos. Por isso o estabelecimento de uma nova hegemonia passa pela criação de uma correlação de forças que sustente um novo soberano. Seja ele um soberano apenas do Norte ou de todo o continente. A crise da hegemonia do continente está em todos os pontos, inclusive na capital. A religião é outro elemento que disputa a construção do significado da nova soberania política.

Na série a personagem “Alto Pardal” consegue estabelecer as bases para que a sua ordem, uma das muitas que fazem parte da “fé dos 7” tivesse poder para se consolidar como à instituição dessa fé. Todo o plot desenvolvido pela personagem tem como objetivo submeter o poder político ao poder religioso. Estabelecendo como religião de Westeros a sua fé. Sua posição estaria acima dos poderes mundanos. Um misto de Papa e Aiatolá. Quero com isso dizer que essa personagem luta também por estabelecer uma forma de soberania política. A personagem consegue a conversão, ou pelo menos a filiação mais explicita do Rei à religião. Mas a fraqueza desse Rei, e de toda a correlação de formas políticas que o sustenta não permite que essa vitória seja estendida a todo o continente. Acabando de forma trágica, levando consigo o último fio de poder que a Casa Lannister possuía. Bom, mesmo que Cersei não saiba disso.

Acredito que seja necessário pensar as ações dos sacerdotes de R’hllor de um modo mais aprofundado. Principalmente porque cada um dos que são abordados na série parece ter motivações diferentes. Seria necessário discutir se apesar das diferenças de intenção, se o resultado seria a submissão do poder político ao religioso. Ou ainda se somente parte dos sacerdotes possuem esse objetivo. Acho que vale um texto só deles. Felipe Bini me alertou sobre isso, e decidi acatar a crítica integralmente nesse ponto.

Voltando ao texto, há guerra em diversas partes do continente, acho que é possível dizer que há diversas guerras sendo travadas. Todas elas definindo o poder político em suas respectivas áreas.

Contudo, Jon foi o primeiro a estabelecer um poder político que possui a legitimidade do ponto de vista Casas, do povo do Norte ( e além do Norte), da religião da qual faz parte – e aparentemente também de uma representante da religião do Deus Vermelho. Penso que Daenerys fará o mesmo a partir de Dorne.

A série abandonou o plot onde Robb Stark legitima Jon como seu herdeiro. E aparentemente não introduziu o mistério do lugar onde Dany cresceu. Por isso a série achou uma nova forma de configurar Jon como Rei do Norte sem ter que voltar àquele plot, introduzindo novas personagens. De certa forma achei isso preguiça do roteiro.

Concluindo, as transformações pelas quais a personagem passa são uma metonímia das transformações da cultura/política do continente. A nova personagem que surge se constitui como a alma de um novo acordo político que sustenta o Norte. Será uma das três partes que que terá como função criar a nova hegemonia, com um novo conteúdo político, através da restauração Targaryen. Por isso a sua condição de nascimento será superada no processo de transformação da sociedade de Westeros e no estabelecimento do novo, ou nova, ocupante do trono de ferro.

 

 

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